quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
as coisas não começam, apenas. as coisas começam por acabar. quando começam, as coisas começam a acabar. e vão acabando, depois de começar. começar só existe quando se começa. depois de começar, o que há é o acabar. enquanto acabam, as coisas ainda existem. até não haver mais nada para acabar. e aí, quando já não há mais nada para acabar, o que começou por acabar, deixa de existir.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
Estacionei e apercebi-me dele pelo retrovisor. Pediu a moedinha da praxe. Acedi como de costume. O teatro começou antes de eu ter entrado. Ali mesmo na rua. Não percebi o texto mas o homem desenrascava-se bem na sua própria confusão. Cheguei em cima da hora e ouvi as pancadas na bilheteira, ainda a tempo de um inesperado "bom desconto" para "um lugar de excelência". Confirmado e agradecido. No fim, a cinematografia que verte do teatro é nele ver projectado o filme da minha vida.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
são quase seis da manhã. nunca tive especial prazer em deitar-me tarde. e cada vez tenho menos interesse nisso. hoje estive num concerto em que me diverti imenso e me desgastei na mesma proporção. estou cansado mas fiquei até a casa fechar. simplesmente porque encontrei gente com quem tive o enorme prazer de conversar. habitualmente não falo muito. as pessoas acham-me aborrecido por isso mesmo. o que as pessoas não percebem é que aborrecidas são as conversas que me propõem. não nutro a menor satisfação pela maior parte das conversas que me acontecem. então o silêncio é uma forma brilhante de sintonia. é tão raro, mas tão raro dar de caras com gente que aprova uma paixão que eu tenho pelas conversas substanciais. quando acontece não resisto. mesmo quando à volta já só resta um chão imundo com o que resta de uma noite bem passada.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
um dia destes o diafragma vai libertar-se e a tua língua vai querer envernizar-me o abdómen. as loucuras sempre curaram as doenças normais. os cobertores já devem ser demasiados não escutes as conjugações desgastadas. ouve a perplexidade desconexa e a exuberância dos crimes desviantes. encaixa-te no tempo e dá-lhe corda.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
de repente há pessoas que se lembram. que aparecem. aquelas já arrumadas numa prateleira de memórias. reaparecem e renovam uma importância que afinal têm. as vedetas não poupam nas felicitações. agradeço mas não acredito. desconfio. e depois há aquele no canto a bater palmas que veio porque quis e vai-se embora antes de ser notado. por definição a surpresa vem sempre de onde menos se espera. e eu gosto assim.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
se bem que tudo o que importa é um corpo a ferver. e em todo o caso eu nunca gostei de abrir as cartas do banco. a ver se pega o léxico desenvolto e abundante no contágio por comportamentos de risco. bastava a ebulição. o resto é letra minúscula decerto. em paradeiro incerto chama-se pelos dias desavindos que o certo é não vir ninguém ao canto da sereia. servia-se uma alucinação dose dupla a dois pedia-se por medida e nunca se encaixava como devia ser. era um fogo posto a arder nas cinzas de um incêndio recesso do dia anterior.
quarta-feira, 30 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
pegou no lenço e amarrou-o em volta da cabeça duma forma provinciana. dançou depois. a saia curtíssima da mesa ao lado surpreendeu-me. o rosto pouco simpático e a vontade de ser tão competente agrava-se. desconfio sempre de gente com muita vontade de ser competente. sou o primeiro a desconfiar de mim próprio. e a ternura onde? tinha na mão uma fatia de pizza que comprei em promoção e na mesa da frente junto ao pilar estava sentada com ar de miúda devia ser da bandolete e um olhar não sei se incomodado talvez interrogado. a camisola descaída não cobria o ombro onde se acomodava a alça do soutien à vista desarmada. e o carinho? podia ter uma casca de banana seca no bolso das calças ou ter ouvido sermões na idade da pedra ter um réptil no colo ou podia tocar uma punheta atrás do maciço central. e daí? faz-me lembrar aquele poema que fala do que importa. não sei se o poema importa. por caminhos errados não há expectativas goradas há gente que se aparente não há quem se apresente.
terça-feira, 15 de março de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
a viagem de ida não atravessa prazeres deslocados não consome interesses descentralizados. a entrega da encomenda no destino faz-se pelo atalho mais longo ridicularizado na emenda arrastada de um soneto ambulante discreto e passivo nascido do átrio da modéstia atarracado púdico abafado de senso agrilhoado e amedrontado.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
vazio à vista. ancorado a uma rocha de sedimentos lacrimejantes, quem não possui houvera de querer e não quis. a trovoada que se ouve não estala por cima de uma varanda inclinada para um abismo quotidiano. as pontas dos dedos estão fracas. as mãos deslizaram para fora do alcance do beiral. as forças sucumbiram ao cansaço de uma luta desigual. a colecção de destroços dará lugar ao vazio inofensivo.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
e eis-me sentado à mesa, a trabalhar em volta do que me faz falta. ele tem uma voz bonita, bem colocada, grave e cuidada. a leitura antecede o que eu queria escrever. foi longa a viagem. a mesa é apeadeiro de paragem ocasional. o curso é por aqui e vem lá mais floresta para desbravar. o risco é perder o medo e não perder o enredo. soltem as deixas. lembra-te que o silêncio acaba sempre por me dar razão.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
estava hoje com um chapéu cinzento, talvez devido à chuva do dia. os dentes agora tão poucos evidenciam-se entre os lábios finos rodeados de uma barba grisalha rarefeita. o homem velho puxou da carteira e mostou-me a foto feita calendário. com um orgulho tremendo de quem já contou aquela história centenas de vezes e se mostra entusiasmado em repeti-la uma vez vez mais. estava atrasado mas permaneci. quando uma pessoa velha se dispõe a contar-me histórias eu páro sempre para a ouvir. não me interessam as futilidades dos novos. quero as que os velhos guardam religiosamente na memória cada vez menos disponível para armazenamentos insignificantes. ouvi da boca do próprio, as histórias que fazem a história da música do Porto. ouviria tudo de novo, com o maior prazer, ainda que as sucessões talvez já não fossem as mesmas. pararei mais vezes junto aos velhos, assim me queiram contar as histórias que guardam.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
evolução. mistério. rasgados auto-elogios. excitação prodigiosa. uma efervescência hormonal e um bréu desaparecido. a fuga desautorizada vergou-se às evidências não cabendo em si de ridicularizada. tanta rima não cai bem para um lado nem para os outros que dormem ao estilo de quem não existe. o êxtase do sossego não tira deveres aos dois lados de uma moeda sem faces nem costas voltadas ou por voltar. a saliva quente. o cheiro. a tua pele húmida o odor intenso da minha saliva. os lábios mexem para dizer coisas à língua.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
estive apenas a ouvir. a sala é fria e húmida. a pintura das paredes depressa escurece votando-as ao aspecto desgovernado que não combina com as vozes que pouco se ouvem. parei para ouvir. o parque de estacionamento gelado do betão cinzento e mudo só deixa atravessar os ruídos finos dos pneus entre pilares. sentado não parava quieto a tentar arranjar lugar no interior dos meus ouvidos para as palavras todas tão pesadas. a lutar contra o cabrão inútil que contracena dentro de mim pelo menos ouvir. a sala gelada ou o betão debaixo dos mortos como que minudências rídiculas de actos difíceis de encenar.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
lembro-me que as urtigas me faziam uma comichão tremenda nas pernas e as facas eram feitas lá em casa. outrora o cinto tinha marcado passo quando em falso e aquela cor pois canta que olhos assim mais ninguém. mas e os pilares começarem a ruir um a um. cada qual a querer fazer-se notar por via das dúvidas. e um de cada vez como se notavam. raios, quase já nem se notam. a cinza continua a cair. pura a fazer desaparecer um homem que eu amo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
entrou no estúdio e sentou-se. quis falar antes de tocar. falar é antigo. abrir-se é muito muito novo. a conversa leve em redor de episódios fortes. é toda a sinceridade. é toda a ausência de preconceitos. é toda a humildade de perpetuar os passos pequenos que sempre tiveram a importância maior. trouxe-me a música tocada e a música para tocar. e um entusiasmo muito bonito.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
na mala, sem me aperceber, carregava um passado de cada. pousei-a na mesa e escolhi sem pensar mais do que um tempo insignificante. não sei o que lhes interessa. a eles nada que me pareça positivo. rever o filme poderia ser divertido para mim. deles já não espero nada. é o que for. coloquei o filme para mim mais do que para eles. haveria de se justificar a escolha no meio de tanta ironia camuflada. tenho agora a resposta se inventarem a pergunta.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
pedi um número e o porquê. a senhora acedeu sem demora. deu-me um número e o facto. o dia mais feliz da vida. esperava eu um filho mas disse-me ela o casamento. muito convicta da universalidade dessa assumpção. assustou-me a convicção. comoveu-me a ingenuidade. a ingenuidade é um dos tais paus de dois bicos. ilude tanto. ingenuamente tão depressa somos felizes como infelizes.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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